Investir
Chips a voar, gigantes castigados: dentro do melhor semestre da tecnologia desde 2023
A tecnologia acabou de fechar o seu melhor primeiro semestre desde 2023, o ano em que o boom da inteligência artificial começou a empurrar as bolsas para cima. O setor tecnológico norte-americano subiu cerca de 33% desde o início do ano. Mas por baixo desse número redondo esconde-se a história mais interessante de 2026: um mercado a duas velocidades, em que os fabricantes de chips dispararam enquanto vários dos gigantes que toda a gente conhece foram castigados.
Vale a pena perceber o que aconteceu, porque há aqui lições que se aplicam diretamente a quem investe a partir de Portugal, sobretudo através de ETFs. 👇
A recuperação em V
O semestre não foi uma linha reta. As bolsas afundaram até 30 de março, com o conflito entre os Estados Unidos e o Irão a abalar os mercados. A partir daí, deu-se uma recuperação em forma de V: a tecnologia subiu mais de 40% desde esse mínimo, seguida pelos setores da energia e da indústria. O resultado foi o melhor trimestre do índice S&P 500 desde 2020. O índice fechou o semestre perto dos 7.500 pontos.
O mercado a duas velocidades
É aqui que a história se parte em duas.
De um lado, os fabricantes de componentes de IA, sobretudo de memória e armazenamento, viveram um semestre histórico. Nomes como a Micron, a Western Digital, a Seagate e a Intel subiram bem acima de 250% desde o início do ano. O índice de semicondutores de Filadélfia (SOX) registou o melhor trimestre de sempre, e o ETF iShares Semiconductor (SOXX) valorizou cerca de 110% no ano segundo a mesma fonte (outros fornecedores de dados apontam subidas na ordem dos 90% a 100%, ainda assim um quase duplicar em seis meses).
O motor desta corrida é a escassez de memória provocada pela construção de infraestrutura de IA. Para se ter uma ideia da força do movimento, o banco de investimento Bernstein elevou recentemente o preço-alvo da Micron de 510 para 1.300 dólares, antecipando uma forte subida dos preços da memória de alta largura de banda.
Do outro lado, os "Sete Magníficos", as megacapitalizações que lideraram a subida há três anos, tiveram um semestre tudo menos magnífico. Os números falam por si:
→ Microsoft: a cair cerca de 22% no ano, a caminho do pior mês desde o ano 2000 → Meta: a perder à volta de 15% em seis meses → Alphabet (Google): a subir 12% → Apple e Nvidia: a ganhar uns modestos 6% cada
Para um grupo habituado a liderar, ficar atrás de fabricantes de chips que duplicaram ou triplicaram é uma reviravolta e tanto. O analista Dan Ives, da Wedbush, falou num "mercado bifurcado", com vários destes gigantes a serem tratados como se estivessem "no banco de penalizações".
Porque é que os gigantes estão a ser castigados
A explicação resume-se a uma palavra: dúvida. As grandes tecnológicas planeiam gastar mais de 650 mil milhões de dólares em IA só este ano, e os investidores começaram a questionar quando, e se, esse investimento se vai traduzir em lucro. O estratega Ed Yardeni resumiu o sentimento como uma espécie de "fadiga de IA": o ceticismo sobre se o gasto colossal dos gigantes alguma vez compensará.
Por contraste, o mercado preferiu recompensar quem vende as "picaretas e as pás" desta corrida ao ouro. Em vez de apostar nos que gastam fortunas em IA, os investidores viraram-se para os que fornecem as peças críticas, sobretudo a memória, onde a procura excede a oferta e os preços sobem.
Os IPOs ao rubro
O apetite por risco também se viu nas estreias em bolsa. O destaque foi a entrada da SpaceX, de Elon Musk, que segundo a Yahoo Finance angariou mais de 75 mil milhões de dólares, num dos maiores IPOs de sempre. A OpenAI já entregou o pedido para abrir capital, embora um relatório recente indique que poderá adiar a estreia enquanto procura atingir uma avaliação de um bilião de dólares. A Anthropic é outra das tecnológicas de IA que deverá chegar à bolsa ainda este ano.
O que diz Wall Street para a frente
Apesar do castigo aos gigantes, os analistas mantêm-se otimistas com a tecnologia. Os analistas de mercado preveem uma subida de 21% no S&P 500 nos próximos 12 meses. O JPMorgan elevou o seu alvo para o fim do ano para os 7.800 pontos, ainda que avise para o risco de um "flash crash" provocado pelo excesso de concentração em ações ligadas à IA, vendo qualquer queda como oportunidade de compra. A Yardeni Research, que acertou no mínimo de 30 de março, vai mais longe, com um alvo de 8.250 pontos.
O próximo teste é já em julho, com a época de resultados. Os investidores vão querer ver provas concretas de que a IA está finalmente a gerar receita, e não só despesa.
O que isto nos ensina
Esta história americana tem lições muito concretas para quem investe cá, sobretudo através de ETFs globais:
→ O índice não é cada ação. O título diz "melhor semestre desde 2023", mas lá dentro a Microsoft caía 22%. Um mercado em alta pode esconder quedas dolorosas em ações individuais. É o argumento mais forte a favor de não pores tudo numa só empresa.
→ A diversificação esteve a trabalhar para ti. Se tens um ETF do S&P 500 ou do MSCI World, os "Sete Magníficos" pesam imenso na tua carteira. A boa notícia é que, enquanto eles caíam, a subida dos semicondutores e de outros setores ajudou a equilibrar. É exatamente para isto que serve diversificar.
→ Cuidado em perseguir o que já subiu 250%. O setor da memória é cíclico por natureza: aos grandes booms seguem-se quedas igualmente fortes quando a oferta apanha a procura. Entrar depois de uma subida vertical é das formas mais comuns de te magoares.
→ O debate sobre a "bolha de IA" é real. Quando estrategas falam em "fadiga de IA" e bancos avisam para "flash crashes", não é para ignorares nem para entrares em pânico. É para te lembrares do básico: horizonte longo, diversificação e não tomar decisões ao sabor das manchetes.
No fundo, o primeiro semestre de 2026 foi um lembrete de que o mercado raramente é uma só história. Foi, ao mesmo tempo, o melhor semestre da tecnologia em anos e um período brutal para algumas das maiores empresas do mundo. Quem investe de forma diversificada e paciente não precisa de adivinhar qual das duas pontas ganha. Beneficia das duas.
E por aqui me fico, por agora. Mas isto não termina neste semestre: cá estarei eu, no próximo mês, para analisar como arranca o terceiro trimestre e se a época de resultados de julho dá razão aos otimistas ou aos céticos. Até lá, investe com cabeça e mantém-te por perto.
💡 Queres continuar a perceber estes temas sem complicação? Explora mais guias no MoneyClub, o Portal Financeiro.
⚠️ Este artigo é informativo e reflete dados conhecidos à data de 30 de junho de 2026. Os valores das ações variam diariamente e o desempenho passado não garante resultados futuros. Nada aqui constitui recomendação de compra ou venda nem aconselhamento financeiro personalizado. Investir em ações envolve risco de perda de capital.
Recebe os melhores artigos sobre dinheiro.
Sem spam. Só conteúdo útil, no contexto português. Cancelas quando quiseres.
Não percas o próximo artigo
Ativa as notificações e avisamos-te assim que publicarmos algo novo. Sem email, sem spam.
Mais sobre Investir
Corretoras e Bancos
Revolut é seguro? Tudo o que precisas de saber
A Revolut tem 2,3 milhões de clientes em Portugal, mas há nuances críticas sobre protecção de fundos e custos que precisa conhecer antes de aderir.

Notícias do dia
Mercados hoje (30 jun): AeroVironment dispara e Wall Street fecha o melhor trimestre em 6 anos
A sessão de 30 de junho fechou um trimestre forte em Wall Street. A AeroVironment disparou com resultados, o Dow respirou depois do recorde acima dos 52.000, e a Ásia subiu quase toda. Aqui ficam as notícias que mexeram com os mercados hoje.

Corretoras e Bancos
XTB em Portugal: comissões zero, mas convém saber o resto
XTB tem comissões zero em ações e ETFs até 100.000€/mês e suporte em português. Mas há detalhes importantes que deves verificar antes de abrir conta.