Imobiliário
Euribor volta a subir: o que muda na prestação da casa depois da subida do BCE

A maré virou. Depois de quase dois anos de juros a descer ou parados, o Banco Central Europeu voltou a subir as taxas, e a Euribor seguiu atrás. Para mais de um milhão de famílias portuguesas com crédito de taxa variável, isto significa uma coisa concreta: a prestação da casa vai aumentar na próxima revisão.
Na reunião de 11 de junho de 2026, o BCE aumentou as três taxas diretoras em 25 pontos base, a primeira subida desde setembro de 2023. Com efeitos a partir de 17 de junho, a taxa de depósito passou de 2% para 2,25%, a das operações principais de refinanciamento para 2,40% e a da cedência de liquidez para 2,65%.
Porque é que o BCE voltou a subir os juros
A explicação está na inflação, e a inflação está, sobretudo, na energia. A guerra no Médio Oriente provocou uma subida acentuada dos preços do petróleo e do gás, que se repercutiu nos preços em toda a Zona Euro. A inflação da área do euro subiu para 3,2% em maio de 2026, o valor mais alto em mais de dois anos e meio e bem acima do objetivo de 2% do banco central.
O BCE reviu em alta as suas projeções de inflação, que aponta agora para uma média de 3% em 2026, 2,3% em 2027 e 2% em 2028. Ao mesmo tempo, cortou as previsões de crescimento económico. No comunicado, justificou a subida como uma decisão "robusta" face a vários cenários de evolução do conflito, e anunciou que passa a decidir "reunião a reunião", conforme os dados forem chegando.
Onde está a Euribor agora
A Euribor não é definida pelo BCE, mas reflete as decisões e as expectativas do mercado sobre elas. Por isso, antecipou-se à subida e tem acelerado nas últimas semanas.
A 25 de junho de 2026, a Euribor a 6 meses, a mais usada no crédito à habitação em Portugal, estava em 2,606%, e a 12 meses em 2,785%. A 3 meses até recuou ligeiramente nos últimos dias, para 2,293%, mas está num patamar bem mais alto do que no início do ano: em março, a mesma taxa estava nos 2,012%. A aceleração é clara.
Uma nota importante para leres o teu contrato com rigor: estes são valores diários, indicativos. O que conta para a tua prestação é a média mensal do indexante no momento da revisão, segundo o prazo do teu contrato (3, 6 ou 12 meses). É essa média que o banco aplica, não o número de um dia.
Quem sente, e quanto
Cerca de metade do stock de crédito à habitação em Portugal é a taxa variável, embora a fatia de contratos de taxa mista tenha crescido nos últimos anos. Quem tiver revisão marcada para junho ou para os próximos meses vai sentir o agravamento.
A título ilustrativo, para um crédito de 200 mil euros a 30 anos com spread de 1%, a subida de 0,25 pontos do BCE traduz-se em cerca de 45 euros a mais por mês na revisão indexada à Euribor a 6 meses. Contratos indexados à taxa a 3 meses reagem mais depressa, mas também aliviam mais depressa quando o ciclo inverte. Os de 12 meses demoram mais a refletir tanto as subidas como as descidas.
Para enquadrar, o ministro das Finanças lembrou que, apesar da subida, estamos longe dos níveis de 2022, quando a Euribor chegou a ultrapassar os 4%. O patamar atual, perto de 2,5% a 2,8% consoante o prazo, é mais alto do que há um ano, mas não comparável ao pico do ciclo anterior.
Vai aliviar em breve?
O sinal do BCE não aponta para alívio a curto prazo. A postura "reunião a reunião" mantém a porta aberta a novos aumentos se a inflação não ceder, e o mercado já desconta isso: vários analistas preveem pelo menos mais uma a duas subidas ainda este ano, com a taxa de depósito a poder terminar 2026 perto dos 2,75%. Um regresso aos cortes não está, para já, em cima da mesa.
A próxima reunião de política monetária do BCE é a 22 e 23 de julho, com a decisão a ser anunciada no dia 23. É a data a marcar na agenda para perceber se o aperto continua.
O que podes fazer já
Não controlas a Euribor, mas controlas a tua exposição a ela. Algumas frentes a ponderar:
→ Confirma o prazo do teu indexante (3, 6 ou 12 meses) e quando é a próxima revisão. Saber a data evita surpresas no extrato. → Simula o impacto da nova prestação no teu orçamento antes de ela chegar, para te preparares. → Compara o teu spread com o que o mercado pratica hoje. Se for elevado, a transferência do crédito para outro banco pode compensar, mesmo com custos associados. → Se tens liquidez parada, uma amortização parcial reduz o capital em dívida e, com ele, o peso de cada subida da Euribor. → Pondera o equilíbrio entre taxa variável, mista e fixa. A fixa não beneficia das descidas, mas dá-te previsibilidade num período de incerteza. É uma decisão de perfil de risco, não há resposta única.
A subida de junho não é um regresso a 2022, mas é uma mudança de direção depois de um longo alívio. Quem acompanha a Euribor e conhece o próprio contrato decide com antecedência. Quem só olha para a prestação quando ela chega, decide à pressa. O próximo capítulo escreve-se a 23 de julho.
⚠️ Este artigo é informativo e reflete dados conhecidos à data de 25 de junho de 2026. Os valores da Euribor variam diariamente e as decisões do BCE podem alterar este cenário. Não constitui aconselhamento financeiro .
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