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Arrendar casa rende 6%? A verdade dos números

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Arrendar casa rende 6%? A verdade dos números
Foto de micheile henderson no Unsplash

Resposta rápida

O yield de 6% é bruto, antes de custos. Em Portugal, 46% dos proprietários não têm lucro efetivo após despesas reais. O rendimento líquido fica entre 3–4% após deduzir condomínio, IMI, manutenção, vacância e impostos.

O número que toda a gente cita — e o que ele esconde

Há uma frase que ouço com frequência: "Comprei um apartamento para arrendar, rende 6%."

E há um problema nessa frase: esse "6%" é o yield bruto. Antes de impostos, antes do condomínio, antes das obras, antes dos meses sem inquilino. É como dizer que o teu salário bruto é o que tens na mão.

Segundo dados do idealista de julho de 2026, a rentabilidade bruta do arrendamento em Portugal era de 6,2% no segundo trimestre de 2026. É um número real. O problema é o que vem a seguir — ou melhor, o que não vem nessa conta.

Este artigo não te vai dizer para comprares nem para não comprares. Vai mostrar-te os números completos para que possas decidir com os olhos abertos.


Yield bruto vs. yield líquido: o exemplo que muda tudo

O cálculo do yield bruto é simples: divides a renda anual pelo preço de compra do imóvel e multiplicas por 100.

Vejamos um exemplo concreto:

  • Imóvel: €250.000
  • Renda mensal: €1.300 (€15.600/ano)
  • Yield bruto: 6,24%

Até aqui, está tudo bem. Mas agora vem o que ninguém costuma dizer em voz alta.

O que falta nessa conta

Custo Valor anual estimado
IMI €300–€500
Condomínio €552–€2.400 (€46–€200/mês)
Manutenção e conservação €1.000–€2.000+
Vacância (10–15% da renda anual) €1.560–€2.340
IRS categoria F (25% sobre rendimento bruto) ~€3.900
Total de custos estimados €7.312–€11.140+

Num cenário médio, estamos a falar de €8.000 a €9.000/ano em custos sobre um rendimento bruto de €15.600. O que sobra está longe dos 6%.

Não é teoria: segundo análise da DECO citada pelo Jornal de Negócios, 46% dos proprietários que arrendam não têm lucro efetivo após as despesas reais. Só 54% ficam positivos.


Os custos que ninguém menciona na brochura

IMI — o imposto anual que não desaparece

O IMI (Imposto Municipal sobre Imóveis) é cobrado todos os anos sobre o Valor Patrimonial Tributário (VPT) do imóvel. A taxa varia por município — entre 0,3% e 0,8% — e o resultado prático para um apartamento típico ronda os €300 a €500/ano. A boa notícia: é 100% dedutível em IRS categoria F.

Condomínio — a tua responsabilidade, não do inquilino

Se tens um apartamento, tens condomínio. Pode ir de €46 a mais de €200/mês, dependendo do edifício. E atenção: é uma despesa do proprietário, não do inquilino, salvo acordo expresso em contrário. Também é dedutível.

Manutenção — és tu o responsável por tudo

Por lei (NRAU), és responsável pelas obras de conservação do imóvel — infiltrações, sistema elétrico, canalização, etc. Estima €1.000 a €2.000/ano como valor realista para um imóvel em estado razoável. Pior estado, mais obras. Tudo dedutível, incluindo obras feitas nos 24 meses antes de arrendar.

Vacância — os meses que não existem no papel

Entre inquilinos, há sempre um período sem renda. Uma estimativa prudente é 10 a 15% da renda anual como "perda" por vacância. No nosso exemplo de €1.300/mês, estamos a falar de €1.560 a €2.340/ano que simplesmente não entram.

Comissão de agência — opcional, mas cara

Se usares uma imobiliária para encontrar inquilino, paga 1 a 2 meses de renda (€1.300–€2.600 no nosso exemplo). 49% dos proprietários arrendam diretamente e evitam este custo — mas não todos têm essa capacidade ou disponibilidade.

Seguros — um deductível, outro não

  • Seguro de incêndio: obrigatório em propriedade horizontal, dedutível.
  • Seguro multirriscos: facultativo e não é dedutível em IRS categoria F.
  • Seguro de rendas: protege-te contra incumprimento do inquilino e é dedutível.

Fiscalidade: o que o Estado leva antes de tu contares o lucro

O rendimento do arrendamento em Portugal é tributado como categoria F do IRS, e há dois cenários principais:

Taxa padrão: 25% sobre o rendimento bruto (antes de despesas). No nosso exemplo, €15.600 × 25% = €3.900 para o Estado, logo à partida.

Taxa reduzida: 10% se a renda mensal for ≤ €2.300, o contrato for de mínimo 3 anos, e a renda estiver pelo menos 20% abaixo da mediana do concelho (programa de arrendamento acessível). Neste caso, a diferença é substancial — vale a pena simular.

Sobre as deduções, o guia de IRS e fiscalidade tem mais detalhe, mas o essencial para categoria F é:

Dedutíveis (100%): IMI, condomínio, obras de manutenção, seguros de incêndio e de rendas, certificado energético, comissões imobiliárias.

Não dedutíveis: Juros do crédito habitação (mesmo que tenhas hipoteca sobre o imóvel), depreciação do imóvel, seguro multirriscos.

Guarda todas as faturas nominativas — a AT fiscaliza e sem documentação não há dedução.

E mais uma coisa prática: tens direito a atualizar a renda anualmente. Em 2026, o coeficiente de atualização foi de 2,24%, o que significa que uma renda de €1.000 passou para €1.022,40. É o teu direito — mas tens de comunicar por escrito ao inquilino com a antecedência devida.


Os riscos que fazem algumas pessoas não dormir bem

Liquidez — não é como tirar dinheiro do banco

Um imóvel não se vende em dois dias. Vender pode levar meses ou anos, dependendo do mercado local. Se precisares do dinheiro rapidamente — emergência pessoal, oportunidade de negócio — estás encostado à parede. Isso não acontece com um depósito a prazo ou Certificado de Aforro, nem com uma carteira de ETFs que podes liquidar em segundos.

Incumprimento — o inquilino que não paga

É o pesadelo de qualquer senhorio. Um processo de despejo em Portugal é lento e desgastante — o governo sinalizou medidas para agilizar em 2026, mas a realidade operacional ainda está longe de ser rápida. Enquanto o processo corre, recebes zero. O seguro de rendas pode mitigar, mas não elimina o problema.

Vacância e depreciação do imóvel

Preços em Lisboa e Porto estão em máximos históricos. Uma rentabilidade bruta de apenas 4,6% em Lisboa (dados idealista, Q3 2025) deixa muito pouca margem depois de custos. O risco não é só não ganhar — é também comprares no topo e veres o imóvel valer menos daqui a alguns anos se o mercado corrigir.

Risco regulatório — as regras podem mudar

O NRAU protege os inquilinos. E os governos mudam impostos, criam programas, alteram tetos de renda. O que é verdade hoje pode não ser amanhã. Não há garantias neste mercado — como aliás em nenhum outro.


Quando é que comprar para arrendar faz sentido?

Há situações em que o investimento imobiliário continua a fazer sentido — e outras em que claramente não faz.

Faz mais sentido quando:

  • Tens capital próprio sem necessidade de crédito (os juros não são dedutíveis e corroem a margem brutalmente — sobre este ponto, o guia de crédito habitação explica como funciona o financiamento)
  • O imóvel está bem localizado numa cidade ou zona com procura real e constante
  • Compraste a bom preço, não no máximo de mercado
  • Aceitas um yield líquido de 3–4% a longo prazo e encaras isto como diversificação, não como fonte de rendimento rápido

Faz menos sentido quando:

  • Precisas de crédito habitação para financiar a compra
  • Estás a olhar para imóveis em Lisboa ou Porto com preços no topo histórico
  • Procuras rentabilidade rápida ou elevada com pouco esforço
  • Não tens reserva financeira para cobrir 3 a 6 meses sem renda

Alternativas a ponderar: depósitos a prazo e Certificados de Aforro (garantidos até €100k), ou ETFs diversificados para quem quer mais potencial de retorno e aceita mais volatilidade. Cada opção tem o seu perfil de risco e liquidez.


Se ainda queres avançar: cinco passos concretos

  1. Faz as contas com um imóvel específico — preço real, renda de mercado local, taxa de IMI do município. Não uses médias nacionais; usa os teus números.
  2. Fala com um contabilista antes de comprar. As deduções fiscais dependem da tua situação pessoal e há nuances que podem mudar bastante o resultado final.
  3. Simula o pior cenário: e se o inquilino não pagar 3 meses? Consegues cobrir a prestação do crédito (se houver), IMI e condomínio sem entrar em dificuldade?
  4. Lê o NRAU e o contrato antes de assinar — tens direitos, mas também tens obrigações. O artigo sobre o que o senhorio não pode fazer é um bom ponto de partida.
  5. Pondera o seguro de rendas — especialmente se não tens almofada financeira para aguentar meses de incumprimento.

Este artigo é informação educativa sobre o funcionamento do mercado de arrendamento em Portugal — não é aconselhamento financeiro personalizado nem recomendação de investimento. Os valores e taxas referidos baseiam-se em fontes verificáveis disponíveis à data de publicação, mas mudam; confirma os dados atuais antes de tomares qualquer decisão. A tua situação específica — localização, capacidade financeira, perfil de risco — é única. Antes de investires dezenas de milhares de euros, considera consultar um contabilista, advogado ou consultor financeiro independente registado.

Perguntas frequentes

Que custos são dedutíveis em IRS categoria F?

São dedutíveis: IMI, condomínio, obras de manutenção e conservação, seguros de incêndio e de rendas, certificado energético e comissões imobiliárias. Não são dedutíveis: juros da hipoteca, depreciação do imóvel e seguro multirriscos. Todas as despesas devem ter fatura nominativa.

É verdade que a maioria dos senhorios não ganha dinheiro?

Sim, segundo análise da DECO citada no artigo, 46% dos proprietários que arrendam não têm lucro efetivo após as despesas reais. Isso inclui condomínio, IMI, manutenção, períodos sem inquilino e impostos.

Comprar para arrendar com crédito habitação vale a pena?

Vale menos. Os juros do crédito habitação não são dedutíveis em IRS categoria F, o que reduz significativamente a margem de rentabilidade. Vale mais a pena se tiveres capital próprio e uma localização de grande procura.

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